É possível perder a salvação, se ela nos foi concedida pela graça de Deus? (6)

predestinacao

Haja vista a grande quantidade de perguntas repetitivas, de irmãos que estão chegando agora e não leram (ao que tudo indica) os outros artigos e as minhas respostas, resolvi escrever este último artigo, pelo qual concluo esta série. Só voltarei ao assunto se surgir uma argumentação nova, devidamente fundamentada, ou perguntas de interesse geral, pelas quais não se repitam os mesmos clichês predestinalistas.

 

Reitero, porém, que a doutrina da predestinação situando o crente na presciência de Deus não está na Bíblia para motivar choques de ideias, especulações ou coisas semelhantes, mas para Deus encorajar o crente. Através dessa doutrina, o Senhor está mostrando que antes que o mundo existisse, e o homem nascesse, Ele antecipou-se a tudo, prevendo problemas e dificuldades em nosso caminho e nos mostrando que é poderoso para nos levar a salvo para o seu Reino celestial (2 Tm 4.18, ARA; Fp 1.6; Jd vv.24,25).

Reafirmo que um salvo pode vir a se perder. Ele pode sim se desviar, cair em pecado e perecer, caso não se arrependa ante a insistência do Espírito Santo (Ez 18.24,26; 33.18; Hb 3.12-14; 5.9; 1 Tm 4.1; 5.15; 12.25; 2 Pe 3.17; 2.20-22; Rm 11.21,22; 1 Ts 5.15; Dt 30.19; 1 Cr 28.9; 2 Cr 15.2; 1 Co 10.12; Jo 15.6). Essa verdade fica ainda mais evidente quando consideramos o “se” condicional quanto à salvação (Hb 2.3; 3.6,14; Cl 1.22,23), bem como a condição “ao que vencer”, que aparece sete vezes em Apocalipse 2 e 3.

Quanto ao texto de João 10.27,28, é importante observar que o versículo 27 mostra as condições da ovelha, para que ela nunca venha a perecer, nem sair das mãos de Jesus e do Pai (cf. Jo 6.67). Outrossim, se não há perigo de queda definitiva para o crente, por que a Bíblia adverte com tanta ênfase para que ninguém caia (1 Co 10.12; Hb 3.12; Jo 15.6; 1 Tm 4.1 [“apostatarão”]; 2 Ts 2.3 [“apostasia”]; Pv 16.18; 28.14; Ap 2.4,5; Rm 8.13; 2 Pe 1.10; 1 Co 9.27; Nm 14.43)?

Em 1 Timóteo 2.4, está escrito: “[Deus] quer que todos os homens se salvem”. Nisto está incluído o mundo inteiro que queira. De fato, todos os que verdadeiramente crêem se salvam; somos testemunhas disso. O Senhor predestinou à salvação todo aquele que aceitar a Jesus. A própria aceitação já é um dom de Deus, para que ninguém se glorie julgando que assim contribuiu para a sua salvação.

A predestinação fatalista da alma, como ensinada pelos calvinistas, bem como a dependente de obras humanas, propalada pelos arminianos, não têm apoio na Palavra de Deus. O termo original de onde provém a nossa palavra “predestinação” (gr. pro-oridzo) significa “destinar de antemão”, “predeterminar”, “preestabelecer”, “prefixar”, “preeleger”, etc. (At 4.28; Rm 8.29,30; 1 Co 2.7; Ef 1.5,11).

Biblicamente, a predestinação não é a de uns para a vida eterna e a de outros para a perdição eterna. A predestinação é para os que quiserem ser salvos, conforme lemos em 2 Tessalonicenses 2.13, que Deus nos escolheu desde o princípio para a salvação. Ou, de acordo com 2 Timóteo 2.10, para que os “… escolhidos… também alcancem a salvação”.

Predestinação é o ato divino pelo qual Deus decide ou destina de antemão, segundo a sua soberana e perfeita vontade. Ela depende da eleição e seus propósitos. Eleição é o ato divino pelo qual Deus escolhe ou elege um povo para si, para salvá-lo (2 Ts 2.13). Predestinação é o ato de Deus determinar o futuro desse povo. No Novo Testamento, esse povo é a Igreja, o Corpo de Cristo, do qual — se somos salvos mesmo! — somos parte (Ef 1.22,23).

Na predestinação de Deus para a Igreja está a sua conformação à imagem do Filho de Deus (Rm 8.29), a sua chamada para a salvação (Rm 8.30), a sua justificação (Rm 8.30) e a sua glorificação (Rm 8.30). Essa conformação depende de chamada, justificação e glorificação. E depende, ainda, da santidade de Deus (Ef 1.4) e da adoção de filhos (Ef 1.5).

A eleição divina não consiste somente na soberania de Deus, mas também na sua graça (Rm 11.5). Em relação a indivíduos, isoladamente, a predestinação e a eleição somente têm lugar se a pessoa estiver inclusa “em Cristo” (Ef 1.4), bem como permanecendo “santa e irrepreensível” (Ef 1.4b; Cl 1.22,23; 1 Co 1.2; Cl 1.2; 1 Jo 2.6). O crente está seguro quanto à sua salvação enquanto permanecer em Cristo (Jo 15.1-6). Não há segurança fora de Jesus e do seu aprisco. Não há segurança espiritual para ninguém, estando em pecado (cf. Rm 8.13; Hb 3.6; 5.9). Jesus guarda o crente do pecado; e não no pecado.

Somos mantidos em Cristo pelo seu poder, mediante a nossa fé nEle (1 Pe 1.5; Jd v.20; 2 Co 1.24b). A salvação é eterna para os que obedecem ao Senhor (Hb 5.9; 1 Co 15.1,2). Estamos em pé pela fé em Cristo, e não pela predestinação: “tu estás em pé pela fé” (Rm 11.20); “se é que permaneceis firmes e fundados na fé” (Cl 1.22,23); “Deus é salvador de todos, mas principalmente dos fiéis [lit. “dos que crêem”]” (1 Tm 4.10).

Há vários outros textos que também mostram a segurança do crente somente enquanto este está em Cristo (Sl 91.14; 16.8; Hb 3.14; 2 Tm 1.12; 1 Co 1.8). O crente deve obedecer a Deus; não para que a sua obediência o salve ou o mantenha salvo, mas como uma expressão da sua salvação, do seu amor e da sua gratidão para com aquEle que o salvou. Não nos tornamos salvos por aquilo que fazemos ou deixamos de fazer, mas pela fé em Jesus Cristo (At 16.31). A conservação da salvação também vem pela fé em Cristo, pois está escrito: “O justo viverá da fé” (Rm 1.17).

A doutrina da predestinação como ensinada pelo calvinismo só leva em conta a soberania de Deus, e não a sua graça (Rm 11.5; Tt 2.11) e a sua justiça (Sl 145.17; Rm 3.21; 1.17; 10.3). Em Ezequiel 18.23 e 33.11 vemos que Deus quer que o ímpio se converta, e não apenas os eleitos e predestinados. Ele jamais predestinaria alguém ao Inferno sem lhe dar oportunidade de salvação. Isso aviltaria a natureza dEle.

Se todos já estão predestinados quanto ao seu destino eterno, então não há lugar para escolha, decisão ou livre-arbítrio por parte do homem. Entretanto, temos essa escolha em vários textos bíblicos, como vimos. Que Deus nos conceda cada dia uma visão espiritual mais ampla e profunda, a fim de compreendermos a sublimidade da gloriosa salvação que Jesus Cristo consumou; da qual, pela graça de Deus, já somos participantes.

Em tempo: parabéns aos calvinistas pelos 500 anos do nascimento de Calvino! E parabéns aos arminianos pelos 400 anos da morte de Armínio!

Em Cristo,

Ciro Sanches Zibordi

http://cirozibordi.blogspot.com

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